terça-feira, 1 de abril de 2014



No dia de hoje - dizem que das mentiras - este soneto:


"Mentiras
"Ai quem me dera uma feliz mentira
que fosse uma verdade para mim!"

J. Dantas
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?
Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito…
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!"
Florbela Espanca - in "A mensageira das violetas"

quarta-feira, 26 de março de 2014

Um poeta e um poema por dia - XXI


Hoje, Waldemar Lopes

"Soneto das Nuvens e da Brisa

Os pássaros nostálgicos... Errantes
mágicos do crepúsculo, soprando
das longas asas trêmulas o brando
vento da tarde; e logo, em céus cambiantes,

alvos blocos de pluma vão distantes
e efêmeras imagens modelando:
sereias e hipocampos, entre o bando
de carneiros, e rosas, e elefantes,

cães e estrelas, dragões, ou aguçadas
torres, na superfície roseoviva
por onde voga, acesa, a caravela

e as longas asas captam, retesadas,
a poesia da tarde, fugitiva,
mas eterna no instante em que foi bela."

terça-feira, 25 de março de 2014

Um poeta e um poema por dia - XX

Hoje, Vitorino Nemésio

"Teu Só Sossego aqui Contigo AusenteTeu só sossego aqui contigo ausente 
Na casa que te veste à justa de paredes, 
Tenho-te em móveis, nos perfumes, na semente 
Dos cuidados que deixas ao partir, 
A doce estância toda povoada 
Dos mínimos sinais, dos sapatos de plinto 
Que te elevam, Terpsícore ou Mnemósine, 
Como uma estátua fiel ao labirinto. 
Aqui, androceu da flor, o cálice abre aromas, 
Farmácia chamo à tua colecção de vidros 
Onde, à margem de planos e de somas, 
Tenho remédio para os meus alvidros. 
O chá é forte e adstringente, 
O leite grosso sabe à ordenha, 
E até nos quadros vive gente 
À espera que a dona venha. 
Porque tudo nos tectos é coroa, 
No chão as traînes, os passinhos salpicados 
Como o vento ainda longe de Lisboa 
Escolheu a gaivota do balanço 
Que no cais engolfado melhor voa: 
Um vácuo, enfim, que o não será — tão logo 
Chegues no ar medido e a aço propulso: 
Por isso um pouco de fogo 
Bate sanguíneo em meu pulso, 
Pois o amor de quem espera 
É uma graça a vencer. 
Uma casa sem hera 
É como gente sem viver." 

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga"

segunda-feira, 24 de março de 2014

Um poeta e um poema por dia - XIX

Hoje, Vasco da Graça Moura

"insinceridadequis-nos aos dois enlaçados 
meu amor ao lusco-fusco 
mas sem saber o que busco: 
há poentes desolados 
e o vento às vezes é brusco 

nem o cheiro a maresia 
a rebate nas marés 
na costa de lés a lés 
mais tempo nos duraria 
do que a espuma a nossos pés 

a vida no sol-poente 
fica assim num triste enleio 
entre melindre e receio 
de que a sombra se acrescente 
e nós perdidos no meio 

sem perdão e sem disfarce, 
sem deixar uma pegada 
por sobre a areia molhada, 
a ver o dia apagar-se 
e a noite feita de nada 

por isso afinal não quero 
ir contigo ao lusco-fusco, 
meu amor, nem é sincero 
fingir eu que assim te espero, 
sem saber bem o que busco." 


Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

domingo, 23 de março de 2014


Um poeta e um poema por dia - XVIII


Hoje, Trindade Coelho

"Aos Juristas
Irmãos da Confraria das Latada


E Reitor da irmandade das Latadas:
Pra maior esplendor da procissão
Mando que este ano sejam observadas
As regras que em seguida escritas vão:

Em primeiro lugar a Academia

Ceará mais cedinho neste dia.

De modo que na Feira às nove em ponto
Tudo esteja disposto, armado e pronto.

Quando houver poviléu suficiente
Parte o préstito logo em-continente.

As ruas que percorre no trajecto

Vão em prosa no fundo do prospecto.

E tudo muito sério, sem desordem.

Há-de então desfilar por esta ordem:

– Vai na frente, com certo intervalo, 

O grã’Jaime  montado num cavalo.

E uma audaz guarnição pretoriana

Com broquéis de cortiça e armas de cana.

Depois alguns irmãos com barretinas"


Trindade Coelho in "in Illo Tempore" 

sábado, 22 de março de 2014

Um poeta e um poema por dia - XVII


Hoje, Sebastião da Gama


Nasci para ser ignorante 
mas os parentes teimaram 
(e dali não arrancaram) 
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci. 
Há já três lustros que estudo. 
Aprender, aprendi tudo, 
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas, 
aos nossos rios e aos de fora. 
Confundo fauna com flora. 
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros 
a ver um rio passar. 
Com aves e ondas do Mar 
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela 
por sobre o meu parapeito; 
pois não sou eu que me deito 
sem ter falado com ela.

Conheço mais de mil flores. 
Elas conhecem-me a mim. 
Só não sei como em latim 
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido, 
mal haja lugar aberto, 
a mestre: julgam-me esperto, 
inteligente e sabido.

O pior é se um director 
espreita p'la fechadura: 
lá se vai licenciatura 
se ouve as lições do doutor.

Lá se vai o ordenado 
de tuta-e-meia por mês. 
Lá fico eu de uma vez 
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado 
porém, com tais directores, 
e de rios, aves e flores 
somente for vigiado,

enquanto as aulas correrem 
não sentirei calafrios, 
que flores, aves e rios 
ignorante é que me querem."



Sebastião da Gama in “Cabo da Boa Esperança” 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Um poeta e um poema por dia - XVI

Hoje, Ruy Belo

Elogio da Amada


Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida 
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados 
Vem sentada na nova primavera 
cercada de sorrisos no regaço lírios 
olhos feitos de sombra de vento e de momento 
alheia a estes dias que eu nunca consigo 
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso 
começa para além dela a ser longe 
A amada é bem a infância que vem ter comigo 
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos 
e mortes como antes nunca mais 
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria 
no limiar da nossa indiferença 
Os nossos átrios são para os seus pés solitários 
Já todos nós esquecemos a casa dos pais 
ela enche de dias as nossas mãos vazias 
A dor é nela até que deus começa 
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor 
Que importa sermos de uma só manhã e não haver em volta 
árvore mais açoitada pelos diversos ventos? 
Que importa partirmos num desmoronar de poentes? 
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão 
multiplicando-lhe a ausência que importa 
se onde pomos os pés é primavera? 


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"